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Patric: da arma na cintura à decisão que fará seu filho poder andar


Conheça a história do lateral do Vitória, que já salvou irmãs de estupro e, agora, vive a expectativa de ver seu filho andar pela primeira vez.

A história da vida de Patric, lateral do Vitória, surpreende. De infância pobre, ele já viveu experiências como salvar as irmãs de um estupro, carregar armas na cintura, e, agora, mudar a vida do seu filho, Dominic, que terá uma perna amputada para, finalmente, experimentar a sensação de andar e correr.

Patric, 28 anos, nasceu em Criciúma, sul de Santa Catarina. Criado no bairro periférico de Cidade Mineira, ele trocou o carrinho pelo facão guardado na mochila, mas nunca deixou de carregar sua paixão, a bola, debaixo do braço.

“Como a maioria dos atletas, vim de infância pobre. O alimento era contadinho, mas nunca passei fome. Futebol sempre esteve na minha vida. Já nasci com uma bola no berço. Brinco que meu pai só esqueceu de me dar o caderno, mas estudei e tenho 2º grau completo, coisa que poucos conseguem”, orgulha-se.

É mesmo motivo de orgulho. Patric, ou Kica, como era chamado quando moleque, nunca foi um aluno exemplar. Pelo contrário. Chegou a ser suspenso da escola porque carregava armas na mochila. “No colégio eu era um pouco levado. Incomodava, era sempre suspenso. Era muito brigão. Eu sempre tinha alguma coisa guardada na mochila. Uma vez, uns caras foram lá na escola para pegar meu primo e eu tinha dois facões na mochila. Só saía faísca do chão. Na verdade, só não me envolvi com droga, mas andava com arma dos meus primos”, revela.

Ele conta até que uma vez precisou esconder um revólver na cintura para evitar um assalto. “Eu era menor, mas sem inocência. Eu sabia o que podia acontecer. Uma vez um primo pediu para eu guardar uma arma para ele, porque os caras iam pedir ela emprestada pra fazer um assalto. Eles vieram, pediram a arma para meu primo e ele disse que não tinha. Eu estava do lado dele, quietinho, com a arma na cintura. Sei lá, eles podiam matar alguém. Ia envolver polícia também. Graças a Deus nunca presenciei nada que ia fazer mal ao próximo”.

Quando tinha 12 anos, foi Patric quem precisou escapar da morte, além de salvar as duas irmãs caçulas de um estuprador. “Essa foi a situação mais difícil que passei. Eu levava e pegava minhas irmãs na creche. Eu encurtava caminho pelo campo de futebol, que era num mato. Aí, um dia, fomos atravessar e nos deparamos com um homem que tinha um facão preso na bicicleta. Na hora, percebi que era um estuprador. Minhas irmãs tinham 2 e 5 anos. Quando ele estava há uns 3  metros, eu coloquei elas no chão e mandei correr. Aí virei pro cara e falei: ‘Se tu quiser pegar nelas, tu vai ter que me matar. E esse facão vai ser pouco pra mim’. Ele olhou pra mim e arregalou os olhos. Eu tremia muito. Mas consegui correr e tirar elas dali”, lembra com emoção. Hoje, Letícia tem 17 anos e Suelen tem 19.

Calcinha vermelha

Patric seguiu em frente com seu sonho. Conseguiu se tornar jogador de futebol profissional e, como muitos atletas, se deixou seduzir pelo glamour da profissão. Com dinheiro no bolso, começou a gastar em festas regadas a muita bebida.

Em um churrasco, chamou atenção de Chai, com quem se casaria anos depois. Os dois se chamavam de irmãos, já que ambas as famílias vieram da serra catarinense. Mas essa relação não demorou a mudar de status. Graças a uma atitude ousada de Patric.

“Tínhamos amigos em comum e fizemos amizade. Até que resolvemos fazer alguns amigos secretos e tirei ela três vezes seguidas”, conta ele, que precisa interromper a história para dar risada ao lembrar do que fez. “Na terceira vez, eu dei de presente a ela um pijama bem curtinho, verde, com uma calcinha vermelha”, completa.

Incrédula, ela não soube como reagir. “Ele me deu esse presente, aí eu achei que a moça da loja que tinha sugerido, né? Fiquei sem graça, mas fazer o quê?”, lembra a esposa.

A jogada foi mais arriscada que dar um carrinho ao estilo do italiano De Rossi, famoso por esses lances no esporte, mas deu certo. Em dezembro de 2012, os dois começaram a namorar e ele largou a bebida. “Eu bebia muito. Sempre gostei muito de festa. Comia porcaria demais, tudo em exagero. Parei depois que comecei a namorar com a Chai. Em 2011, cheguei a ser afastado do Atlético Mineiro por causa disso”.

Em 2013, os dois começaram a morar juntos. Patric até tentou aplicar um “golpe” na namorada, mas não deu certo. “Em 2013, fui emprestado por um ano ao Coritiba, com intenção de ser comprado e ficar lá por três, quatro anos. Aí eu falei pra Chai que casaríamos no próximo local que eu fosse. Só que eu fui bem e, no fim daquele ano, recebi proposta do Sport, que era muito boa. Eu achei que ia enrolar ela alguns anos, mas aí tive que casar, né? Prometi”, conta aos risos, acompanhado pela esposa.

Muita coisa mudou desde então. Longe da cerveja, Patric hoje garante que bebe apenas vinho, socialmente, e não desgruda do chimarrão.

O pequeno Dominic

Em 2015, veio o presente: Dominic. Mas o sonho de uma vida perfeita desmoronou. Com oito meses de gravidez, foi diagnosticado que o bebê tinha hemimelia tibial, doença rara que atinge uma em um 1,5 milhão de crianças. “Não acreditei. Esperava um filho perfeito, cheio de saúde. Eu só chorava, achei que ia largar minha vida. Foi difícil, quase entrei em depressão. Mas ele é perfeito aos olhos de Deus”, conta Chai, com Dominic no colo, vidrado no celular da mãe.

Com má-formação do lado direito do corpo, o menino tem limitações físicas. “Ele só tem quatro dedos na mão direita e, no pé, não tem todos os dedinhos. Ele tem torcicolo congênito, que é a posição confortável dele, com o pescoço virado. Na perna, ele não tem encaixe no quadril, nem tem a tíbia. A perna dele é ‘solta’, ele também não tem a patela”, explica Patric.

Sorridente como o pai, Dominic vai enfrentar uma das suas maiores batalhas em dezembro, quando viajará para os Estados Unidos para amputar a perna. Ele receberá uma prótese. Mas nada de sentir pena. Cheio de sorrisos, o menino de 1 ano e 11 meses, enfim, vive a esperança de poder correr atrás de Dior, o filhote de cachorro da raça Golden Retriever da família, que não desgrudou de Dominic durante boa parte da entrevista.


“Optamos por amputar porque quanto mais demora, pior pra desenvolver a parte física. Hoje, a perna dele não tem função. Se optássemos por corrigir, ele passaria por pelo menos sete cirurgias na infância inteira, sem garantia de que um dia poderia andar, correr. Seria muito sofrimento”, explica Patric, cheio de esperança de jogar bola, pela primeira vez, com o filho.

Materia: Corriodabahia

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